Foi assim em 1917, quando Marcel Duchamp submeteu Fonte a um concurso nos Estados Unidos. A obra consistia num urinol branco, com a assinatura R. Mutt, ou seja, um objeto trazido da esfera da vida cotidiana para o circuito de museus e galerias. Nascia o readymade, e a ousadia do artista causou furor e o colocou em um patamar de destaque em relação à arte que seria concebida e concretizada em seguida. "Era um visionário que prenunciou uma época. O contemporâneo na arte não diz respeito a uma temporalidade específica, e sim a uma espécie de diálogo com o espírito de uma época. Nem tudo o que se faz hoje, por exemplo, é arte contemporânea. Trinta anos depois de Duchamp, houve a bomba em Hiroshima e o mundo perdeu a inocência. Vieram a crise dos papéis sociais, dos lugares das coisas e uma insegurança na classificação das obras de arte. Duchamp antecipa isso ao assinar o mictório, dando ao artista o poder de decidir o sistema de legitimação", observa a curadora e crítica Cristiana Tejo, ex-diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, do Recife, e coordenadora de capacitação e difusão científico-cultural da Fundação Joaquim Nabuco.Para ela, não se pode pensar em arte contemporânea sem o pioneirismo de Marcel Duchamp e a ambivalência de Andy Warhol. A pop art defendida pelo artista é essencial por transformar em matéria-prima o mundo de então. "Ele é cínico e crítico. Ao constatar que, no futuro, todos terão 15 minutos de fama, Warhol falava da vida, da velocidade com que as coisas mudam, do artista que faz do mundo seu ateliê. Na arte contemporânea, o que importa não é a linguagem, e sim a forma de operar", pontua Cristiana. As obras passam a dispor de vários suportes, ganham espaço as performances, a interação com novas mídias, as instalações - ou seja, algo que não se assemelha a ícones como os quadros de Van Gogh, ou mesmo a Mona Lisa, de Da Vinci, apenas para citar a arte ocidental.Ideias circulantes"A característica da arte contemporânea é a multiplicidade de expressões. Em uma Bienal de Veneza ou na Documenta de Kassel se encontram performances em vídeo, arte conceitual e instalações se confrontando numa sinergia. Há uma convergência. Se antes as coisas eram mais estanques, a contemporaneidade fez com que essas expressões interagissem em diálogos, interfaces, trocas. O cinema incorpora literatura, pintura, dramaturgia, e o teatro incorpora o cinema. Há uma circularidade dos formatos e das ideias estéticas", argumenta o crítico, professor e doutor em cinema pela Universidade de Sorbonne - Paris 3 Alexandre Figueirôa. Na produção cinematográfica, por exemplo, é possível distinguir os autores que romperam as estruturas tradicionais. "F. W. Murnau, Luis Buñuel, Dziga Vertov, Jean Rouch, Sergei Eisenstein quebraram paradigmas. Aos poucos o fazer artístico passou a exigir um olhar mais atento e uma abertura por parte do espectador", pontua Figueirôa.Tal abertura é essencial para a apreciação da arte em todas as suas manifestações - cinema, literatura, teatro, dança -, pois todas estão conectadas a uma noção de contemporâneo. "Desde que se entenda essa noção não como um estilo, mas como um modo de pensar, de organizar os pensamentos que ajudam a formular as proposições artísticas sobre o mundo", salienta a pesquisadora e coordenadora do programa de pós-graduação em dança da Universidade Federal da Bahia Fabiana Dultra Britto. Ela defende que "as modificações históricas nos modos de pensar e produzir arte" advêm menos de "gênios iluminados" e mais de um "processo contínuo de contaminação das ideias circulantes em cada contexto". Pode-se, contudo, rastrear os artistas que catalisaram "certo modo de pensamento artístico e procedimento compositivo fortemente identificado com princípios lógicos contemporâneos, como a não-linearidade, o acaso, a complexidade". Na dança, Fabiana cita Merce Cunningham, Trisha Brown, Lucinda Childs, Steve Paxton, Jèrôme Bel e Meg Stuart, entre outros.No cinema, o radicalismo de Jean-Luc Godard e a poética de Pier Paolo Pasolini, por exemplo, nem sempre agradam; e, no teatro, Samuel Beckett enfrentou resistência com sua visão ácida, da mesma maneira que existem detratores das encenações de Zé Celso Martinez Corrêa। "A suposta 'dificuldade' em 'entender' a arte contemporânea está em querer medi-la e julgá-la a partir de parâmetros que não reconhecem as suas especificidades। Como qualquer outro campo de expressão e de conhecimento humano, as artes visuais possuem uma história que continuamente (re)constrói convenções sobre as quais operam। É preciso pensar se faz realmente sentido a ideia de 'entender' a produção contemporânea em artes visuais, já que não cobramos um 'entendimento', por exemplo, da música que escutamos no rádio", pondera Moacir dos Anjos.A arte contemporânea, portanto, não deve ser enquadrada em conceitos anacrônicos, e sim sentida como eco de um mundo voraz, múltiplo e vasto. Esse mundo é representado não pela verossimilhança, e sim pela liberdade. A produção atual se dirige a espectadores/fruidores/consumidores que acolhem a pluralidade e exercitam a generosidade no olhar, e oferece a quem se aproxima de uma pintura, uma instalação, um filme ou uma performance um caminho no qual os significados estão abertos e ainda em construção.
Quem tem Medo da Arte Contemporânea?Fernando Cocchiarale, crítico de arte e ex-curador do MAM-RJ realiza o workshop Quem tem Medo da Arte Contemporânea?, de 8 a 10 de maio, na Escola Guignard – Rua Ascânio Bulamarque, 540 – Mangabeiras। O valor da inscrição é R$ 300,00 e o curso acontecerá quinta e sexta, das 19h às 22h e no sábado, de 10h às 13h. Informações pelo telefone (31) 3337-7007.

